A despeito de notícias que nos chegaram da Antiguidade sobre descrições de quadros psiquiátricos, a Psiquiatria, como a conhecemos, nasceu em meados do século XIX e se estruturou na primeira metade do século XX. Poderíamos, de forma bem sintética, traçar uma linha que se inicia na nosologia de Emil Kraepelin (1856-1926), encorpa-se na psicopatogia de Karl Jaspers e atinge seu cume na Psiquiatria fenomenológica de Francisco Alonso-Fernándes (1924) - para em seguida flexionar para baixo, em uma revolta contra as ciências perpetrada pelo que se convencionou chamar "antipsiquiatria" e no nominalismo cientificista que tem sido o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, o DSM (a bem da verdade, deve-se acrescentar que este último tem sua utilidade na uniformização dos diagnósticos necessária às pesquisas médicas).
De fato, a partir dos anos 1960, autores intelectualmente menores e moralmente controversos, tais como David G. Cooper (1931-1986), que mais tarde soube-se ter sido agente da KGB treinado em Moscou (apud Thomas S. Szasz), o perverso polimorfo Michel Foucault (1926-1984) (apud Roger Kimbal), Franco Basaglia (1924-1980), um gramscista dissimulado, menos ocupado com doentes mentais do que com a revolução socialista, e o embusteiro Jacques Lacan (1901-1981) (apud Alan Sokal), para citar só os mais proeminentes, atentaram contra a Psiquiatria ("psiquiatricidas", na palavra de Henri Ey).
Dito de forma simplificada – mas não menos verdadeira -, a antipsiquiatria fulminou a Psiquiatria e o DSM fulminou a Psicopatologia e, assim, a segunda metade do século XX e o início do XXI transcorreram na hegemonia e nos litígios entre as duas correntes.
É nesse cenário miserável que surge o psiquiatra mineiro Gustavo Fernando Julião de Souza e este livro que o leitor inicia a ler. A Psicopatologia da Clínica Cotidiana é um achado, é trigo escolhido ao joio, um raio de luz nas trevas. Nesta obra de fôlego, Julião utiliza sua vasta e rica experiência de 40 anos na lida psiquiátrica para criar elegantes descrições fenomenológicas dos fatos psicopatológicos, produzindo, em consequência, uma Psiquiatria e uma psicopatologia refinadíssimas firmemente ancoradas na realidade clínica.
É leitura obrigatória não só para os jovens psiquiatras, mas também para todos nós, os mais velhos que nos mantivemos firme diante das tentativas enrangées de descontrução da nossa ciência pela nossa própria geração. Leiam e verificarão que A Psicopatologia... significa um pequeno renascimento originado na Psiquiatria mineira, tão maltratada nos últimos 30 anos.

(Humberto Campolina)

 

A Psicopatologia da Clínica Cotidiana

Os textos de Karl Jaspers sobre psicopatologia exerceram influência profunda no desenvolvimento da Psiquiatria em geral e da nosologia psiquiátrica em particular. Entretanto, ao longo dos anos, a psicopatologia vem sofrendo um processo de empobrecimento progressivo, perdendo sua densidade e profundidade. O resultado são sistemas classificatórios constituídos de categorias reificadas, distantes da prática clínica, baseadas em listas de alguns sintomas característicos para cada um dos transtornos. As descrições dos transtornos são muito limitadas. A meta principal é a confiabilidade, com prejuízo da validade. Uma das consequências da grande influência exercida por esses sistemas classificatórios na Psiquiatria atual é a desumanização da prática psiquiátrica. Privilegiam-se os checklists de sintomas, em detrimento de uma visão abrangente acerca do paciente.
Há livros que são urgentes. “A Psicopatologia da Clínica Cotidiana”, do Professor Gustavo Julião, é um desses livros, um contraponto ao Zeitgeist psiquiátrico atual. Baseado em seus sólidos conhecimentos da psicopatologia clássica e em sua vasta experiência de professor, preceptor e clínico, propõe um método de investigação semiológica denominado por ele de fenomenológico-dinâmico, fundamentado nos conceitos de “morbus” primário e secundário, filtro ou prisma caracterológico e marcadores psicopatológicos. Em sua elaboração diagnóstica, a determinação da personalidade pré-mórbida é fundamental. O método viabiliza a formulação de hipóteses diagnósticas de grande utilidade clínica, permitindo abordagem terapêutica individualizada, alicerçada em sólida relação médico-paciente.

Fábio Lopes Rocha

 

PARA OBTER SEU EXEMPLAR: "Psicopatologia da Clínica Cotidiana": 
http://www.coopmed.com.br/index.php/livro-psicopatologia-da-clinica-cotidiana.html